:: ARTE NA VILA ::


:: A BELEZA & A COPA DO MUNDO ::
06/07/06


...é sempre bom pensar que as coisas estão mudando. A beleza da vida reside exatamente nesta percepção e deve ser por isso que tentamos fotografá-la quando ela surge. Ninguém guarda fotos só pela lembrança que nela está impressa: guarda-se um pedaço do tempo em que a vida é bela . Fixa no close-up de uma propaganda de cremes para a pele feminina. 

Pensar a beleza assim, estática e absoluta, é tirar de sua essência nuclear suas arrasadoras propriedades quânticas. Quando um novo amor toma conta da sua imaginação e a vida à sua volta muda de direção, um raro e quase imperceptível momento de Beleza muda a sua visão do mundo à sua volta, que dá voltas e quando volta pode voltar de onde foi reduzido a ...ninguém! Que romântico; que lindo! 
Imaginar, como o budismo, que eliminar o desejo (e com ele: a necessidade de satisfação) pode abrir a mente para quem topar o transe orgônico: vai ver a Beleza em detalhes aparentemente invisíveis. Todavia, esse êxtase não responde a ansiedade de quem foi criado numa cultura baseada no sacrifício e na ressurreição: gente assim, só na cachaça e na sacanagem. A única vantagem do budismo sobre esses bárbaros latinos é que, na condição espiritual deles, a visão mutante da Beleza fica mais nítida. A mudança de estado de espírito não é levada pelos sentimentos; mas: neles reconhece, clara como água corrente, a inolvidável Beleza das emoções.
Quando o Brasil foi eliminado da Copa e arrastou atrás de si uma corrente de emoções, espalhada pelas almas patrióticas através da mágica das comunicações digitais e insufladas pela propaganda, uma Beleza de altos teores oxidantes apossou-se daquele momento: apesar da aparência caótica e dolorida, acontecia naquela comoção uma quase miraculosa ab-reação trágica: mais para grego do que para gregoriano! 

Na derrota, a mudança impôs sua Beleza fulminante. Submisso aos imperiais flúidos orgonais da dor, uma memória impactante ficou registrada e toda a vida que nestes flúidos está condensada, exigiu a lágrima (pela perda de acumular mais uma memória de glória) e permitiu a revolta (contra os que representavam seu prazer à distância e devem ser cobrados como eleitos).

Desatando algumas algemas do nó górdio que amarra os desejos monitorados numm pelorourinho eletrônico, aquela derrota francesa, repetida e improvável, foi belíssima. Técnica e esportivamente indiscutível. Um tapa na cara da soberba. Veneno para as vaidades e invejas administradas pela mídia.

...mas, os fãs da mesmice prescindem e dependem das repetições, redundâncias e outras alegrias do mesmo que domina o desejo da multidão.  Ainda somos penta, mas campeões não fomos desta vez: este detalhe abriu as portas para a renovação (os técnicos, com suas burocracias conservadores, só falam nisso: inclusive, vão renovar o próprio técnico).
Não perdemos nada: ganhamos tudo . Os milhares de técnicos amadores do país, com ou sem cervejas adornando seus parlatórios, vão tagarelar à vontade; redefinir tudo; explicar todas as dúvidas e probabilidades alteradas. Entretanto, em função da formação sócio-religiosa, jamais falarão da possibilidade de uma mulher assumir o comando da seleção. Imaginem uma Márília Gabriela, no gramado, orientando os artilheiros... ou, quem sabe: Ângela Rorô! Tá mais para Bruna Surfistinha, mas, para o cargo, ela ainda é muito inexperiente. Dá para a Rita Lee tentar, mas os resultados são estatisticamente incalculáveis...

Não ganhamos tudo: nem perdemos nada. Os craques milionários não perderam seus patrocinadores (só tiveram uma cartada de investimentos redirecionada); nem os fãs que pagaram euros para ir à Europa vê-los em campo vão deixar de passar por Paris ou pelos balneários da Riviera Francesa (em pleno verão), na dura viagem de volta para casa determinada pela França. Ninguém ia trazer a taça: no máximo, um gadget, um bibelô...

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...avisa-se: esse jogo não pode ser um a um. Os duros que, em suas casas e badernas na rua, diante de telões enxarcados de cerveja e guaraná, nos craques projetaram suas necessidades de entender a felicidade e com eles cantavam o hino antes da troca de flâmulas e dos jogos; estes, sim: receberam a Beleza da perda como uma visita da morte. Em ritmo de velório, cantarão suas mazelas por algum tempo; até que uma nova vitória, qual um novo Pelé, ressucite (mude) tudo que passará a ser novo de novo. 

...para quem não sabe: a memória recicla-se! É a cada momento deste tempo que muda de estado físico, durante esta initerrupta mudança que a Beleza impõe sua magestade e atrai para si, tudo que dela estiver distante. Aguardar a próxima mudança é fundamental para entender que a felicidade dói quando dá a luz à Beleza que nasce. Compreender e aceitar a mudança: eis uma vida de onde não se ausenta a Beleza que, quando se realiza plenamente, realiza sempre uma esperança. A Beleza não é só um instante: é uma eternidade que muda de eterno a cada instante... 

Que Beleza!  A vida muda e a felicidade seguem em frente, repaginando o passado, dando conteúdo ao presente e olhando adiante um futuro impressionante! Se isto não for belo, olhe no retrovisor e atualize o que de belo, pelo menos uma vez na vida, lhe deixou radiante. Ou faça qualquer coisa que sua intuição mandar: só não deixe de mudar com o que à sua volta muda a todo instante. 

(se der, para cada texto publique um box com um poema, no fim... - o primeiro pode ser este mandado ao Roriz: tem tudo a ver com o texto)



Tavinho Paes
www.poemashow.com.br
Jornal Tablóide Nº 2 nas bancas

 

 

Tavinho Paes publica toda semana um texto diferente.

Todos os direitos reservados ao autor.

 

 
     

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